Dados específicos são indispensáveis para identificar desafios sanitários e habitacionais das comunidades. Mas ainda é difícil extraí-los de fontes oficiais. Projeto une moradores e agentes do SUS para preencher lacunas – e criará plataforma pública com as informações

 

 

OutraSaúde

Publicado 04/11/2026 às 06:02 - Atualizado 04/11/2026 às 08:29

Foto: Alexandre Cerqueira/RioOnWatch

 

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Uma queda da escada dentro de casa, uma crise respiratória agravada pelo mofo, a exaustão provocada pelo calor em um cômodo sem janela. Nas favelas brasileiras, parte importante do adoecimento começa da porta para dentro. Os sistemas de informação em saúde, porém, registram o agravo, a internação e o óbito, mas raramente conseguem dizer onde, exatamente, eles aconteceram, e muito menos em que condições vivia quem adoeceu.

Os dados reunidos no DATASUS, principal acervo público de informações de saúde do país, têm séries históricas longas, mas são agregados por município, distrito ou subprefeitura, o que impede conhecer o que acontece em assentamentos específicos, como as favelas. O mesmo limite marca os indicadores de inadequação habitacional, que também não são desagregados para esses territórios e pouco caracterizam o interior das moradias. Sem dados territorializados de nenhum dos dois lados, tampouco é possível relacionar as condições de saúde dos moradores às de suas casas.

Diante desse cenário, o Centro de Estudos da Favela (CEFAVELA), financiado pela FAPESP e sediado na UFABC, passou a produzir dados que relacionam saúde e moradia em favelas. Em 2026, a pesquisa “Autoprodução do espaço de moradia nos territórios de favela” percorreu 600 casas na Vila Prudente e em Heliópolis, em São Paulo, e no Jardim Marilene, em Diadema, para entender como o domicílio se relaciona com a saúde, o estresse térmico e a segurança física dos moradores. Nas duas primeiras, ouviu também agentes comunitárias de saúde, que entram nessas casas pela atenção primária.

Na semana do Dia da Favela, celebrado em 4 de novembro, conhecer como se vive e se adoece dentro dessas casas é parte do reconhecimento que a data propõe.

Uma busca que não chega à favela

Se você é uma pesquisadora de saúde e precisa conhecer as condições de saúde de uma favela específica, o primeiro passo, provavelmente, será o DATASUS. Ali estão o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), o Sistema de Informações Hospitalares (SIH) e o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), com séries históricas de décadas. Em São Paulo, a prefeitura também disponibiliza esses dados em sua plataforma TabNet, inclusive os do sistema que registra acidentes como quedas de laje e escada, queimaduras e choques dentro de casa.

A busca, porém, logo esbarra na escala. No melhor dos casos, os dados chegam ao distrito ou à subprefeitura de residência. As internações do SIH, por sua natureza administrativa, só aparecem por município e por mês de pagamento, não de ocorrência. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo Ministério da Saúde com o IBGE diretamente nos domicílios, poderia ser uma alternativa, mas é amostral e foi feita apenas em 2013 e 2019. Em nenhuma dessas bases a favela aparece como unidade de análise.

Resta à pesquisadora pedir dados desagregados por meio da Lei de Acesso à Informação, caminho que não é claro nem garantido, e submeter o projeto a um Comitê de Ética em Pesquisa. Se os dados chegarem, começa outro trabalho: localizar endereços imprecisos, muitas vezes manualmente. Os registros de tuberculose no SINAN costumam ser mais detalhados, porque o tratamento exige encontrar o paciente, mas os do SIM são mais limitados. Em favelas, onde muitas vezes não há endereçamento oficial, o problema se agrava.

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Se a mesma pesquisadora quiser conhecer as condições das moradias, o cenário se repete. O Censo 2022 identificou as Favelas e Comunidades Urbanas e informa se as casas estão ligadas às redes de água, esgoto e coleta de lixo, mas pouco diz sobre o interior dos domicílios. A PNAD Contínua, base dos indicadores de déficit e inadequação habitacional calculados pela Fundação João Pinheiro, traz algumas características da moradia, mas não permite desagregar o universo das favelas.

Mais difícil ainda é relacionar as duas dimensões. Sem uma base que reúna, para a mesma casa, as condições da moradia e a saúde de quem vive nela, a relação entre habitação e adoecimento nas favelas segue como hipótese amplamente aceita, mas pouco medida.

As agentes de saúde abrem caminho, mas há pedras nele

Se os sistemas não chegam à favela, as agentes comunitárias de saúde chegam a cada casa. Vinculadas à Estratégia Saúde da Família (ESF), elas visitam os domicílios regularmente e conhecem de perto as condições em que vivem as famílias. Entrevistar agentes que atuam na Vila Prudente e em Heliópolis foi um dos caminhos que o CEFAVELA percorreu para se aproximar da relação entre saúde e moradia. As conversas mostraram, porém, que as condições da casa raramente se convertem em instrumento de trabalho ou em informação registrada.

Muitas agentes percebem que certos problemas de saúde podem estar ligados ou ser agravados pelas condições da casa, como o mofo, a falta de janela ou o tamanho reduzido do domicílio. Essa observação, porém, não passa de percepção, porque seus instrumentos de trabalho não têm campos para registrá-la. Mesmo quando anotada em relatórios ou levada à equipe de Saúde da Família, serve como contexto, e não como elemento para pensar o caso, já que a atenção primária, com seus próprios limites, pouco pode fazer em relação à moradia.

Questionadas sobre ações conjuntas entre as secretarias de saúde e de habitação, as agentes relataram não conhecer nenhuma, o que mostra que a distância entre as duas áreas é, fundamentalmente, institucional. Mesmo as que atuam desde o início da ESF nesses territórios nunca viram as unidades básicas de saúde articuladas a técnicos da Secretaria Municipal de Habitação.

Orientar sobre a moradia tampouco faz parte das atribuições ou da formação das agentes, diferentemente do que propõe a assistência técnica em habitação. Mesmo recomendações simples encontram barreiras. Manter as janelas abertas para renovar o ar, por exemplo, esbarra no fato de que muitas permanecem fechadas por segurança ou privacidade, e as agentes relatam que opinar sobre questões domésticas exige muita confiança do morador.

Quanto aos dados, as agentes alimentam o perfil epidemiológico de suas áreas a partir de categorias que vão de doenças cardiovasculares ao acompanhamento de gestantes e recém-nascidos. Trata-se, porém, de um registro das demandas acompanhadas, e não de um retrato completo da população, já que muitos moradores não estão vinculados à unidade de saúde. A informação é parcial, de difícil atualização e, como as características do domicílio não são coletadas, não se associa às condições da moradia.

As entrevistas mostram, assim, que as agentes comunitárias são a política de saúde que de fato entra na moradia de favela. A moradia, por sua vez, ainda não é para elas fonte de informação nem objeto de trabalho, e a relação que percebem com a saúde de quem vive ali não encontra espaço institucional para ser registrada ou enfrentada.

Dados que abrem portas, janelas e novos caminhos

Além das entrevistas com as agentes, o CEFAVELA realizou um levantamento de dados primários com moradores de 600 domicílios de três favelas, por meio de entrevista pessoal assistida por computador. O questionário articulou informações sociais e de saúde dos moradores a informações técnicas e arquitetônicas das casas, registradas cômodo por cômodo, com medições de temperatura e umidade. É essa combinação, ausente das bases oficiais, que permite olhar para saúde e moradia na mesma unidade de análise.

Os resultados começam pelas doenças que a Organização Mundial da Saúde, em suas diretrizes sobre habitação e saúde, associa às condições da moradia. Em 48,8% dos domicílios há ao menos um morador com histórico de doença respiratória crônica, e em 54,2%, com doença cardiovascular. A tuberculose aparece em 2,5% das casas. Em 37,3%, alguém já sofreu queda de laje, escada ou desnível dentro de casa ou na edificação.

Do lado da moradia, os números são igualmente altos. Umidade ou infiltração aparecem em ao menos um cômodo de 92,5% das casas. Em 68,2%, há cômodo sem janela, e em 20,8%, cômodo com janela obstruída, o que, na prática, equivale à ausência dela. Cada morador dispõe, em média, de 17,4 m², mas em 28,3% das casas esse espaço fica abaixo de 10 m², patamar associado ao adensamento excessivo.

Os riscos à segurança física também são frequentes. Entre as casas com escada, 84,2% têm escadas inadequadas ou apenas parcialmente adequadas, com degraus desproporcionais, altura de passagem insuficiente ou ausência de corrimão e guarda-corpo. Vãos ou desníveis sem proteção, com risco de queda, estão presentes em 63,5% dos domicílios.

O calor soma-se a esse quadro de riscos à saúde. Nas medições das pesquisadoras, o interior era mais quente que a rua em 54,5% das casas, em média 1,5 °C a mais, chegando a 7,45 °C nos casos extremos. Em favelas, onde vielas estreitas e cômodos sem ventilação dificultam a dissipação do calor, essa diferença ganha relevância para a saúde cardiovascular, sobretudo de idosos, presentes em 42,3% dos domicílios pesquisados.

As primeiras tentativas de cruzar essas dimensões apontam caminhos. A presença de morador com doença respiratória é maior nas casas com umidade, mofo ou infiltração (47,4%) do que nas que não têm o problema (40%). Onde a escada é inadequada ou improvisada, mais da metade das casas (55,1%) tem morador que já caiu, e nas casas com vãos e desníveis sem proteção essa proporção é de 42,8%, contra 27,9% nas demais.

Relacionar doença e moradia é tarefa complexa. Muitos determinantes atuam ao mesmo tempo, as análises de contingência exigem parâmetros rigorosos e os dados ainda estão em processamento. Os resultados preliminares, porém, já revelam números graves e sinais consistentes de associação, sobretudo entre as quedas e as condições de escadas e vãos. E evidenciam que, quando produzidos na escala da casa, os dados tornam visível uma relação entre moradia e adoecimento que os sistemas oficiais ainda não alcançam.

Sem endereço

Afinal, onde moram os dados sobre saúde e moradia em favelas? Por ora, em lugar nenhum. As bases de saúde não chegam à escala da favela, os indicadores habitacionais não entram nas casas e as duas dimensões não se cruzam em nenhum sistema oficial. Essa ausência aprofunda a exclusão desses territórios, porque o que não aparece nos dados dificilmente orienta prioridades, orçamento e ações de saúde.

O desafio, portanto, é duplo e envolve, de um lado, a falta de informação produzida na escala do domicílio, capaz de associar as condições da casa à saúde de quem vive nela, e, de outro, a ausência de políticas que integrem saúde e habitação. É o que mostram as agentes comunitárias, que percebem os efeitos da moradia sobre seus pacientes, mas não têm onde registrá-los nem a quem encaminhá-los.

A pesquisa do CEFAVELA soma-se a outras iniciativas que vêm buscando preencher esse vazio, e seus dados serão disponibilizados em breve em plataforma pública. O centro também lançou recentemente a nota de pesquisa “Determinants, Pathways and Health Outcomes in Informal Settlements: Towards an Integrated Framework” (“Determinantes, trajetórias e desfechos em saúde em assentamentos informais: por um marco integrado”), de Edmundo Werma, que revisa a literatura internacional e defende abordar a saúde nesses territórios de forma intersetorial.

Para quem pesquisa favelas, olhar para a saúde é olhar também para a casa, e vice-versa. Enquanto saúde e moradia seguirem em sistemas de informação que não conversam, a relação entre a casa e o adoecimento de quem vive nela continuará sem endereço nos dados públicos. Na semana do Dia da Favela, produzir essa informação é também uma forma de reconhecer e cuidar da saúde de quem vive nesses territórios.

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