Neste Dia Mundial da Alimentação (16 de outubro), evocamos as palavras de Carolina Maria de Jesus para lembrar que a fome não é uma fatalidade, mas resultado de escolhas políticas, desigualdades estruturais e de um sistema que concentra a terra, a riqueza e os alimentos nas mãos de poucos. São as mulheres, especialmente as negras, indígenas, camponesas e periféricas, que historicamente sustentam a vida, enfrentam a insegurança alimentar e constroem alternativas coletivas para alimentar suas famílias e comunidades.

Para a CFEMEA, lutar pelo direito à alimentação é também lutar pela soberania alimentar, pela reforma agrária, pela agroecologia, pela justiça ecosocial e pela autonomia das mulheres.

É nos territórios, nas cozinhas coletivas, nas roças e nas experiências de economia feminista e sustentação da vida que seguimos cultivando caminhos para o Bem Viver.

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Há alimentos para todos, mas 266 milhões de pessoas sofrem insegurança alimentar aguda

IHU - 17/10/2026

O planeta produz alimentos suficientes para toda a população mundial, mas milhões de pessoas não conseguem acessá-los por causa das guerras, da pobreza, dos deslocamentos forçados ou do colapso dos serviços básicos. No Dia Mundial da Alimentação, a organização Ação Contra a Fome apresenta um estudo apontando como a combinação desses fatores está concentrando a fome em um número cada vez menor de países.

A reportagem é publicada por La Marea, 16-10-2026.

O relatório As 10 maiores crises alimentares do mundo: vozes, causas e soluções (2026) traça um mapa da fome no qual se destacam (pelo número de pessoas afetadas) Nigéria, República Democrática do Congo, Sudão, Iêmen, Afeganistão, Mianmar, Bangladesh, Paquistão, Sudão do Sul e Síria. Nesses 10 países vivem 2 em cada 3 pessoas que sofrem níveis elevados de insegurança alimentar no mundo.

Paradoxalmente, os dois países que lideram esse ranking são extraordinariamente ricos em recursos naturais: a Nigéria é o principal produtor de petróleo e gás da África e a República Democrática do Congo se destaca por suas riquezas minerais, que incluem a maior produção mundial de cobalto, coltan e tântalo, além de cobre, ouro, urânio e diamantes, sem contar seus imensos recursos florestais. Essa riqueza não se traduz em uma melhor qualidade de vida para suas populações locais. Ao contrário, por meio de um modelo neoextrativista herdado da era colonial, serve para abastecer as necessidades de acumulação de capital do Norte global e, mais recentemente, da China.

A fome no mundo, “longe de ser uma consequência inevitável da falta de alimentos, corresponde cada vez mais a causas políticas e humanas”, afirmam na Ação Contra a Fome. Segundo o Relatório Global sobre Crises Alimentares (uma das fontes para o estudo), durante a década compreendida entre 2016 e 2025, o número de pessoas que sofreram insegurança alimentar aguda dobrou.

Guerras prolongadas, deslocamentos em massa, restrições ao acesso humanitário, crises climáticas recorrentes e sistemas econômicos frágeis estão deixando milhões de pessoas presas em crises que se repetem ano após ano. E, à medida que aumenta o número de pessoas em risco de fome, o financiamento humanitário diminui (com os Estados Unidos, principal potência mundial, liderando esses cortes). Estima-se que a ajuda destinada aos setores de alimentação em contextos de crise tenha sido reduzida em 59% entre 2022 e 2025.

“A guerra nos obrigou a fugir de nossa casa e nos deixou sem nada. Alguns dias encontramos trabalho, outros não, e frequentemente não podemos comprar comida suficiente para nossos filhos”, relatou Ali Ahmed, um pai deslocado no acampamento de Al-Saad, à equipe da Ação Contra a Fome no Iêmen.

Desde o início daquela guerra, em 2014, entre os rebeldes houthis (apoiados pelo Irã) e o governo internacionalmente reconhecido (sustentado pela Arábia Saudita com a ajuda dos Estados Unidos), quase 380 mil pessoas morreram. Há mais de 5 milhões de iemenitas deslocados de suas casas e mais de 18 milhões sofrem insegurança alimentar grave. A situação da infância é particularmente dramática: mais de 2,2 milhões de crianças menores de cinco anos sofrem de desnutrição aguda.

“Uma pessoa desnutrida”, explicam na organização Ação Contra a Fome, “tem menos condições de combater doenças, e as infecções recorrentes podem agravar rapidamente seu estado nutricional”. Nos países analisados por essa ONG, 30 milhões de crianças sofrem de desnutrição aguda. Nessas mesmas condições estão também 6,5 milhões de mulheres grávidas e lactantes.

E essa situação se agrava lenta, mas inexoravelmente, nos países que mais sofrem com a fome. Os três primeiros (Nigéria, República Democrática do Congo e Sudão) concentram hoje mais de 31% das pessoas que sofrem insegurança alimentar aguda no mundo. No ano anterior, eram 28%.

Em 2024, foi declarada no Sudão a primeira fome extrema do mundo em sete anos. Ela foi confirmada em 2025 (ano em que também foi oficialmente declarada em Gaza). O vizinho Sudão do Sul, por sua vez, entrou pela primeira vez na lista dos países com o maior número de pessoas em situação de fome. Estima-se que mais de 80% de sua população, cerca de 10 milhões de pessoas, precisará de ajuda humanitária em 2026.

Assim como acontece em outros países da lista, o Sudão do Sul é muito rico em petróleo, mas essa riqueza, gravemente afetada pela guerra iniciada em 2023, não está a serviço de sua população. Além disso, é um dos lugares mais perigosos para os trabalhadores humanitários. Registrou-se a morte de 29 deles ao longo de 2026, incluindo cinco colaboradores da Ação Contra a Fome.

O caso de Gaza

Embora o relatório seja estruturado com base em números absolutos, a Ação Contra a Fome inclui Mali, Níger e Gaza como locais que exigem atenção especial. O caso de Gaza se destaca, além disso, pelas “extraordinárias restrições impostas às operações humanitárias”.

Na Faixa de Gaza vivem 1,6 milhão de pessoas em situação de insegurança alimentar. A falta de dinheiro em espécie afeta 93% dos lares. Além disso, 54% deles não podiam adquirir alimentos básicos devido aos seus preços extremamente altos. Entre as famílias, 60% têm dificuldades para acessar água potável.

“No início de maio, apenas metade dos caminhões de ajuda que entravam em Gaza conseguiu descarregar suas cargas devido a obstáculos logísticos e administrativos. A ajuda está lá, mas muitas vezes fica bloqueada antes de chegar às famílias”, relata Martha (nome fictício por razões de segurança), coordenadora do trabalho de emergência em Gaza.

“Nossas equipes trabalham sob ameaça constante, em um contexto marcado pela insegurança e pela destruição de infraestruturas essenciais para a sobrevivência da população”, acrescenta. A insegurança, as restrições de acesso, a escassez de combustível e as estradas danificadas obrigaram os trabalhadores humanitários e as comunidades a recorrer a carroças, bicicletas e veículos de tração animal para chegar às pessoas necessitadas.

Além disso, as forças de ocupação israelenses confinaram toda a população civil entre a linha laranja, a linha amarela e o corredor de Salah al-Din, uma área que corresponde a menos da metade da Faixa. Milhões de pessoas se amontoam ali. A superlotação e o colapso dos sistemas de saneamento estão acelerando a propagação de doenças transmissíveis, como diarreia, infecções de pele e sarna, o que reduz a absorção de nutrientes e provoca desnutrição aguda, especialmente entre as crianças.

Esse frágil setor da sociedade palestina é alvo de uma hostilidade particular por parte de Israel. Somam-se à fome e à doença os ataques armados contra essas crianças, qualificados por uma comissão de investigação da ONU como “genocídio”. Nas Nações Unidas, conclui-se que esses atos “fazem parte de uma estratégia deliberada para destruir o futuro dos palestinos em Gaza, atacando suas crianças”.

A fome extrema declarada em 2025 provocou manifestações de repúdio em todo o mundo e forçou as autoridades israelenses a diminuir os ataques contra a população palestina de Gaza. Aquela foi “uma fome extrema a poucas centenas de metros dos alimentos, em uma terra fértil”, como indicou Tom Fletcher, responsável pelos Assuntos Humanitários da ONU. “Uma fome extrema do século XXI vigiada por drones e pela tecnologia militar mais avançada da história. É uma fome extrema promovida abertamente por alguns líderes israelenses como arma de guerra”, acrescentou.

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fonte: https://ihu.unisinos.br/672251-ha-alimentos-para-todos-mas-266-milhoes-de-pessoas-sofrem-inseguranca-alimentar-aguda

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