
Por Gabriela Fidelis, Hellen Frida e Ivanira Monte - CFEMEA
A vitória de Lula representa muito mais do que uma conquista eleitoral. É a expressão da força da mobilização popular, da resistência democrática e da esperança de um povo que se recusou a aceitar a desesperança, a impotência, o individualismo e o avanço do fascismo. É uma vitória construída nas ruas, nas redes e nas urnas, com a participação de mulheres, juventudes, pessoas idosas, mães de vítimas da violência de Estado, do povo nordestino e de tantas pessoas que, com coragem e generosidade, defenderam a democracia, os direitos humanos e a soberania popular.
Para nós, feministas antirracistas, celebrar essa conquista é reconhecer o protagonismo das mulheres que enfrentaram o autoritarismo, denunciaram a violência política, desmascararam os discursos de ódio e resistiram às ameaças do fundamentalismo religioso, do racismo, da misoginia e das forças econômicas que tentam transformar direitos em privilégios. Mulheres negras, indígenas, periféricas, trabalhadoras, LGBTQIAPN+ e tantas outras mulheres, em sua diversidade, mobilizaram corpos, vozes, afetos e consciências para defender a vida, os direitos e a democracia. Essa vitória também é nossa: às mulheres, o reconhecimento de sua luta e o direito de participar das decisões sobre o presente e o futuro do país.
A força política das mulheres nessa vitória também se expressa nos números. Lula foi reeleito presidente da República com 64.256.232 votos, o equivalente a 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, uma diferença de mais de 4,4 milhões de votos. Em uma eleição tão disputada, o eleitorado feminino demonstrou ser uma força fundamental de sustentação do projeto democrático.
Na última pesquisa Datafolha antes da votação do segundo turno, Lula alcançava 53% das intenções de votos válidos entre as mulheres, contra 47% de Flávio Bolsonaro, enquanto entre os homens o cenário se invertia: 54% para Flávio e 46% para Lula. A pesquisa CNT/MDA também identificou essa divisão, apontando 55% das intenções de voto feminino para Lula e 57% das intenções de voto masculino para seu adversário.
Embora esses números representem tendências identificadas nas pesquisas, e não a apuração dos votos por gênero, revelam uma expressiva clivagem política entre mulheres e homens. O voto feminino se apresentou, assim, como uma importante força de resistência ao avanço da extrema direita, da misoginia, do fundamentalismo e dos projetos autoritários que ameaçam direitos historicamente conquistados.
Essa força eleitoral precisa agora se traduzir em força política, representação, participação nas decisões e compromissos efetivos com a transformação das condições de vida das mulheres brasileiras. As mulheres, especialmente as negras, indígenas, periféricas e trabalhadoras, não podem continuar sendo convocadas para defender a democracia nas urnas e permanecer sub-representadas nos espaços onde se definem os rumos do país.

A diferença de gênero observada nas pesquisas também exige uma reflexão profunda sobre a disputa de valores na sociedade brasileira, sobre a reprodução do machismo e sobre a necessidade de enfrentar a misoginia que é usada como instrumento de mobilização política da extrema direita. A vitória de Lula precisa abrir um novo ciclo de compromissos com a agenda feminista antirracista, no orçamento público, na paridade nos espaços de poder e decisão, na construção da autonomia econômica, justiça reprodutiva, valorização do cuidado e enfrentamento de todas as formas de violência contra as mulheres.
A resposta feminina nas urnas é também um chamado à radicalização da democracia: não basta contar nossos votos, é preciso compartilhar conosco o poder de decidir. As mulheres não são apenas eleitoras fundamentais para vencer eleições; são sujeitas políticas indispensáveis para construir o futuro do Brasil.
Além disso, na alegria dessa conquista democrática, não podemos esquecer que a democracia precisa ser fortalecida todos os dias. Celebrar a reeleição de Lula é também relembrar a responsabilidade política do governo e das forças democráticas com a construção de um projeto de país que enfrente as estruturas de dominação, as desigualdades estruturais e a concentração de poder econômico e comunicacional. É defender políticas públicas que garantam autonomia econômica às mulheres, trabalho digno, valorização do trabalho de cuidado e do cuidado como um todo, justiça reprodutiva, participação política paritária, enfrentamento à violência de gênero e racial, proteção dos territórios, justiça ecosocial e fortalecimento dos serviços públicos.
Nesse processo, o conjunto das forças democrática - Movimentos Sociais, Comunitários, Partidários e outros - podem assumir uma responsabilidade histórica: transformar a resistência ao fascismo em uma nova fase de um projeto político duradouro, mais popular e mais comprometido com a justiça ecosocial, agora feminista antirracista. Essa construção não pode se limitar ao horizonte de 2030, nem depender exclusivamente da liderança de Lula, mas pode ser convocada por ele. É necessário formar novas lideranças, ampliar a participação das mulheres e das juventudes, fortalecer a organização popular, democratizar as instituições e construir mecanismos permanentes de participação e controle social. A continuidade desse projeto exige preparar, desde já, futuras sucessões políticas comprometidas com a democracia, os direitos humanos, a igualdade e a soberania popular.
Também precisamos enfrentar o poder das Big Techs quando utilizado para disseminar desinformação, discursos de ódio e ataques à democracia, defender a soberania digital e construir uma comunicação democrática, plural e responsável. Não haverá democracia plena enquanto as tecnologias servirem à manipulação política, enquanto a violência ameaçar a participação das mulheres e enquanto umas parcelas da população permanecerem sem voz nas decisões que afetam suas vidas.
A vitória eleitoral abre caminhos, mas não garante, por si só, as transformações de que precisamos. Cabe à sociedade civil organizada, aos movimentos feministas, negros, populares e LGBTQIAPN+, aos sindicatos e às forças progressistas manter a mobilização, a autonomia crítica e a capacidade de diálogo e cobrança. Apoiar a democracia também significa acompanhar governos, exigir compromissos e defender, sem renunciar à crítica, a implementação das pautas que sustentam a vida.
Vencemos uma batalha, mas a construção de um futuro democrático exige continuidade, organização e coragem coletiva. Que a esperança conquistada se transforme em políticas públicas, direitos efetivos e poder compartilhado. Que nenhuma mulher seja abandonada e que as novas gerações recebam não apenas a memória dessa vitória, mas as condições para defendê-la e ampliá-la.
A democracia que defendemos é feminista, antirracista, popular, plural e comprometida com a vida. É por ela que seguimos mobilizadas: para que esta vitória/resposta nas urnas seja tornada o alicerce de um futuro sem fascismo, sem violência e sem retrocessos, no qual todas as pessoas possam viver com dignidade, liberdade, igualdade e justiça ecosocial.
A democracia que queremos viver precisa romper com a perspectiva neoliberal que coloca no centro o EU individualista, restritamente comercial e excludente, totalmente fiel a racionalidade mercantil, englobante e totalizante, que atravessa todos os campos: a economia, a política, o social e até a intimidade. Que tem como paixão a meritocracia e a disputa vaidosa, egocêntrica, arrogante do ser superior ao outro, combustão supremacista!
O projeto antifascista rompe diretamente com o estadismo autoritário alimentado por valores conservadores impostos como normas de comportamento para os cidadãos comuns. Lutamos e resistimos a uma “desdemocratização” que provém do uso do germe neoliberal na democracia.
A democracia precisa recuperar a práticas de cuidado e atenção aos outros, ao reconhecimento relacional do Eu interdependente que apoia e vislumbra uma retomada da capacidade do agir por si e com os outros através de políticas públicas e de superação das situações de vulnerabilidades. Fazer renascer a concepção de viver junto, por meio da primazia de um laço democrático participativo, solidário e não excludente.
Estamos ecoando uma democracia sensível que tem o cuidado enquanto uma ação que diz respeito a vida, aos seres e objetos e resgata o sentir e o pensar em nós, sujeitos coletivos nos reconstruindo socialmente.









Uma coletânea de artigos escritos por parceiras estratégicas da CFEMEA e que construíram conosco nossas principais lutas políticas ao longo dos últimos 30 anos. 


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