OutrasPalavras

Publicado 10/08/2026 às 14:35

Foto: Maira Erlich/Bloomberg

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Frente aos efeitos da sua crise, o capitalismo tem se reorganizado para recompor as taxas de acumulação do capital e reproduzir as relações de poder da classe dominante. Isso, evidentemente, não se dá de forma descolada da política, já que é através do Estado que se articulam e se legitimam as condições necessárias para a reprodução da acumulação capitalista e a dominação de classe.

Como parte desse processo de reorganização e de busca pela saída da crise, observamos, no último período, o aprofundamento da agenda neoliberal através das políticas de austeridade, das privatizações e precarização dos serviços públicos, da retirada de direitos historicamente conquistados pelas classes trabalhadoras, da intensificação da exploração predatória dos recursos naturais e do alto investimento em conflitos militares – como é o caso das guerras em andamento na Ucrânia e no Irã, para além do genocídio em Gaza.

Por conta das contradições e dos limites do próprio processo de acumulação capitalista, sua reorganização demanda o aprofundamento de relações imperialistas. Desta forma, “mais capitalismo” equivale a “mais imperialismo”: é necessário que um Estado subjugue outras nações e povos, do ponto de vista econômico, político e militar, para garantir a manutenção dos interesses econômicos da burguesia monopolista. Essa expansão exige a abertura de novos mercados, acesso a recursos naturais e matérias-primas e intensificação da exploração da força de trabalho.

A perda de hegemonia do imperialismo estadunidense frente a ascensão do bloco liderado pela China, faz com que a sua atuação externa se torne ainda mais agressiva, voltando os olhos aos países da América Latina, historicamente considerada o seu quintal. A força do imperialismo estadunidense sobre a América Latina se coloca de diferentes formas, tanto dentro quanto fora da ordem. Ilustram essa afirmação as declarações e ameaças contra a soberania nacional; a imposição de taxas abusivas e unilaterais; as pressões por flexibilizações legislativas; o financiamento de organizações, agentes e processos de mobilização política interna; o monitoramento de dados e a perseguição de lideranças políticas; e as fraudes em processos eleitorais. São inúmeros os exemplos que poderíamos citar, nos últimos anos, de situações que expressam essa forma de controle – não apenas no caso brasileiro, mas também dos países vizinhos. Mais recentemente, o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, além das ameaças de invasão à Cuba, aprofundando os efeitos do embargo que já dura seis décadas, são duros exemplos da ofensiva imperialista perante a soberania dos povos latinoamericanos.

Na busca por recompor a hegemonia, a influência sobre os processos eleitorais na América Latina tornou-se uma tática central. Aquilo que restou da onda dos governos progressistas, eleitos na década de 2000, tem sido devastado diante da vitória de governos alinhados aos interesses dos Estados Unidos. Atualmente, a direita e a extrema-direita governam sobre a Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Guatemala, Honduras, Panamá, Paraguai e Peru, com alinhamento e apoio político direto ou indireto de Trump e seus aliados.

O processo eleitoral no Brasil não está ileso. O país desempenha um papel geopolítico fundamental na América Latina e no bloco BRICS, apresenta um mercado consumidor e industrial relevante, e detém recursos naturais estratégicos para o desenvolvimento econômico e tecnológico. Por conta disso, ao ter um governo que seja subserviente aos interesses do imperialismo, o Brasil contribui para que os Estados Unidos tenham melhores condições em sua disputa mundial.

Mesmo não propondo um rompimento profundo – seja no plano programático, ou mesmo no âmbito das articulações políticas –, Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), é o candidato que representa o principal polo de resistência, no campo institucional brasileiro, aos interesses da Casa Branca. Por outro lado, Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), personifica o campo neofascista e conta com o apoio direto de Donald Trump e de setores da direita estadunidense, além de não esconder sua disposição de subordinar os interesses nacionais aos Estados Unidos.

O neofascismo pode ser funcional à reorganização do capitalismo e à viabilização de interesses imperialistas. Afinal, se ambos convergem para a intensificação dos processos de exploração e expropriação, a ascensão de regimes e governos mais autoritários pode contribuir decisivamente para o controle da insatisfação e da resistência popular, ao mesmo tempo em que favorece a difusão de uma ideologia que naturaliza as desigualdades. Nessa perspectiva, a reorganização do capitalismo, o avanço do imperialismo e a consolidação do neofascismo articulam-se e retroalimentam-se, conformando um quadro particularmente complexo para a atuação da esquerda e das forças populares.

As pesquisas eleitorais mais recentes apontam que Lula lidera a intenção de votos sobre Flávio Bolsonaro – com uma margem estreita de diferença, embora ampliada nas últimas semanas –, assim como com todos os demais candidatos da direita, que tentam se colocar como uma via alternativa. Os números, no entanto, não podem nos iludir nem no sentido de acreditar que a vitória nas urnas está dada, e nem de considerar que o campo neofascista está enfraquecido.

Mesmo sofrendo alguns reveses – como a derrota na eleição presidencial de 2022, a tentativa frustrada de golpe em 2023, a prisão preventiva de Jair Bolsonaro e sua impossibilidade de aparição pública desde 2025, e as recentes denúncias de corrupção envolvendo Flávio –, o campo neofascista não perdeu sua capacidade de iniciativa e coesão. O projeto encampado pelo neofascismo têm sido construído cotidianamente através da disputa ideológica, da atuação e expansão nos espaços institucionais, do trabalho de organização política junto às massas populares e classes médias, da articulação internacional, da influência sobre as polícias e milícias e, não menos importante, da aproximação com os interesses da burguesia a partir do programa neoliberal.

Observamos que desde a eleição de 2022, o conjunto da esquerda tem avançado muito pouco do ponto de vista do fortalecimento da organização popular, da elevação no nível de consciência e educação política das massas e da construção de um projeto político que coloque a classe trabalhadora em melhores condições para enfrentar o neofascismo e o imperialismo. Ao contrário, vemos que a atuação hegemônica da esquerda se mantém restringida em propostas e saídas reformistas.

Nesse complexo quadro, com efeitos duradouros e inimigos poderosos, cabe refletir quais devem ser nossas tarefas mais imediatas, a curto prazo, que possibilitam acúmulos durante o processo eleitoral e que colocam o campo progressista em melhores condições para atuar no momento posterior às eleições.

A primeira tarefa é colocar o tema do imperialismo e do neofascismo no processo de campanha, traduzindo esses conceitos no diálogo com as massas populares e debatendo com o conjunto das organizações situadas no campo progressista a centralidade dessas dimensões na atual conjuntura. De modo geral, imperialismo e neofascismo são conceitos com pouca repercussão no conjunto da esquerda, o que traz efeitos políticos diretos e profundos: sem a apropriação conceitual, não há compreensão da gravidade dos problemas e desafios que enfrentamos, e nem da necessidade e urgência de se debater, apropriar e elaborar as saídas corretas para esses problemas e desafios.

O uso dos termos, no entanto, não deve ser puramente mecânico. Deve ser acompanhado da articulação de uma perspectiva crítica, capaz de superar os limites do reformismo. A compreensão da gravidade das ameaças de Trump à soberania nacional, como parte de um projeto imperialista, deve vir acompanhada da defesa de um projeto nacional de desenvolvimento; assim como a compreensão da gravidade do discurso de ódio propagado pela família Bolsonaro, enquanto expressão do neofascismo, deve vir acompanhada da defesa da democracia, dos direitos sociais e da organização e mobilização popular. Em ambos os casos, trata-se de não restringir a crítica àquilo que se coloca como ameaça mais imediata, mas de articulá-la à construção de um projeto alternativo de sociedade.

A campanha eleitoral não deve ser resumida à distribuição de panfletos com pedidos de voto, e nem ao mero esforço cotidiano, desprovido de formação e articulação política, realizado por centenas de militantes e ativistas voluntários. A segunda tarefa fundamental trata justamente de se fortalecer a organização e o trabalho popular, contribuir para a formação de militantes e elevar o nível de consciência política dos diferentes sujeitos envolvidos. O período eleitoral abre uma janela de oportunidades para inserção nos territórios, realização de discussões cotidianas sobre a política e articulação com lideranças e pessoas engajadas. Trata-se, portanto, de aproveitar esse momento para avançar na ação, organização e formação política, criando condições para a continuidade e o fortalecimento do trabalho no período posterior às eleições.

Por fim, num âmbito mais institucional, temos como tarefa articular a denúncia dos nossos inimigos com a apresentação das candidaturas que identificamos serem capazes de contribuir com o avanço de um projeto alternativo, que tenha os interesses das classes trabalhadoras como centralidade. Ao mesmo tempo, é necessário dar visibilidade às demandas identificadas nos territórios e articulá-las às campanhas das candidaturas majoritárias e proporcionais em níveis federal e estaduais. A disputa eleitoral, portanto, deve ser compreendida não somente como um momento de conquistar votos, mas como uma oportunidade de se articular a disputa institucional à organização, à formação política e à mobilização popular.

A campanha em torno da candidatura de Lula da Silva é imperativa. Sua vitória, embora incerta, poderá nos proporcionar melhores condições de luta e atuação política diante de inimigos cada vez mais fortalecidos e de um cenário que gradualmente se apresenta mais hostil e violento. No entanto, a manutenção da frente ampla que sustenta o governo, sem a constituição de um polo de esquerda capaz de disputá-la – mesmo diante do desembarque de alguns atores –, somada à consolidação do neofascismo, indicam que muitas das contradições que enfrentamos atualmente tendem a permanecer e, inclusive, se aprofundar, caracterizando um cenário de grandes desafios às organizações políticas comprometidas com a transformação da sociedade. Nesse quadro, o fortalecimento da organização popular torna-se imprescindível.

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